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sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Último Mnemônico Temporal

Os policiais corporativos me carregaram semiconsciente por um corredor. Me prenderam em uma cama. Logo abririam minha cabeça, pois eu era o único portador vivo do chip que permitiria a alguém voltar com a consciência no tempo sem perder a memória.
Olhei para o cientista responsável. Era um amigo disfarçado, prestes a fazer algo idiota. Meus músculos não me obedeciam. Encostou dois fios em minha cabeça, me eletrocutando. Todos se desesperaram. Apesar de inerte, senti o chip sendo ativado.
Meu corpo tremeu. Desapareci do laboratório, e reapareci em um corredor, sendo carregado semiconsciente por policiais corporativos.

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Este conto tem exatas 100 palavras, incluindo o título, e foi feito como um exercício para a Oficina de Escrita Criativa da Pandora Escola de Arte, ministrada pelo autor e editor da Trasgo, Rodrigo van Kampen. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Como Capturar o Sol


Ela corria, incansável, como se fosse sua última chance. Estava decidida a prender o Sol. Adorava vê-lo no céu, mas o queria mais perto. Queria tê-lo. Queria se sentir aquecida por ele. Mas primeiro, capturá-lo.

Enquanto subia aquela montanha altíssima, sua alma se alegrava, imaginando o verão eterno que seria sua vida. Carregava consigo, escondida em seu bolso, uma ferramenta importantíssima que utilizaria para a captura. Estava completamente preparada.

Chegou ao topo ofegante, e se viu num dilema: ele ainda estava longe, muito longe. Nunca conseguiria pegá-lo. Sua cabeça doeu e sua visão virou nuvem. Sentiu seu corpo ir de encontro com a grama.

— Filha! Filha!

Acordou e viu ele, o Sol, iluminando por trás o contorno do cabelo de sua mãe, que a balançava para acordá-la. Ela parecia muito mais especial daquele jeito, com os cabelos e a pele refletindo a cor dourada.

— Tome, amor, beba um pouco de água. Não devíamos ter deixado você subir esse morrinho num dia tão quente.

Engoliu meio copo, e olhou novamente para sua mãe, que estava na mesma posição. Não teve dúvidas. Tirou a sacola de plástico do bolso, e a enfiou na cabela dela.

— Peguei!


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domingo, 13 de outubro de 2013

Elefante



A comida não parava de entrar em sua boca.  Era como um trator recolhendo terra para aplainar um terreno, no caso, o prato. O menino era tão magrinho e se alimentava tão mal, que foi assustador para seus irmãos assistir àquela cena.


Eram garfadas e mais garfadas de arroz, feijão, batata, frango e salada, seguidos de goles de suco de melancia para empurrar a comida guela abaixo. Então o processo se repetia, num ciclo infinito de gula desenfreada.


- O que deu em você, menino? - disse a mãe preocupada.
- Eu estou no meio de uma grande mudança em minha vida, mãe. A partir de hoje, vou comer três pratos de cada vez! - o menino tinha um brilho incomum e resoluto em seus olhos. A mãe ficou confusa.
- Por que, meu filho? Você vai passar mal de tanto comer!
- Vofe vuvu pudhndo... - terminou de engolir, e tentou novamente. - Você vive pedindo pra eu comer... Agora vou comer pra valer! Ninguém vai ser maior do que eu! - Ergueu triunfantemente o garfo, como se fosse uma bandeira de guerra.


A mãe se retirou da cozinha preocupada, e foi falar com o pai, pedindo para ele colocar juízo na cabeça da criança. O pai se levantou do sofá para atender ao pedido de sua esposa, enquanto esta subia as escadas, com a intenção de arrumar o quarto sempre bagunçado do garoto. No quarto, passou a retirar os brinquedos do chão, e quando já começava a arrumar a cama, percebeu o que se passava com seu filho. Na televisão, era exibido o desenho de um elefante de armadura e espada, que lutava contra alguns monstros, e em seguida exclamava vitorioso para a tela:


- A melhor coisa do mundo é ser um elefante!


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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O Beijo

- Me beija.
- Eh... O quê?
- Você ouviu... me beija.

 Concluiu que havia ficado maluco. Tirou os óculos e esfregou os olhos com uma das mãos, para ter certeza de que não era um maldito sonho de mal gosto. Abriu os olhos, e ela ainda estava ali. Esperando.

- Você quer que eu beije… você?
- Sim, eu quero que você me beije.
- Você está falando desses... desses beijos em que você... beija?

Era óbvia a inexperiência do pobre coitado, que tremia como uma britadeira. A garota foi se aproximando, sua voz mil vezes mais dócil:

- Sim, seu bobo, eu estou falando desses beijos em que você... - seus lábios se encontraram. E continuaram se encontrando pelos próximos minutos. Minutos nos quais conheceram um mundo cheio de cores e sabores novos, um mundo mágico. Um mundo onde a infância não tem permissão para entrar.


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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A Flor Amarela


As flores amarelas estavam sorrindo para ela, e queriam ser escolhidas. As escolhidas eram muito sortudas, pois ganhavam uma nova amiga, uma linda garotinha com um vestidinho também amarelo. Ela colhia as flores com todo o cuidado que sua idade permitia, uma por uma, sorriso por sorriso. Tentava não estragar ou pisar em nenhuma delas.

As flores eram infinitas. Quanto mais ela colhia, mais flores apareciam em sua frente. Se pudesse, ela pegaria todas elas. Às vezes ela parava de colher, e dançava junto com elas. Ela tinha sido contagiada pelo sorriso das flores, e agora ela mesma era uma grande flor amarela.

De longe, alguns bancos de pedra acomodavam idosos, um ou outro transeunte que parara para um descanso, e casais. Entre eles, os pais da criança. Todos a observavam, enquanto dançava, cantava e colhia flores. Era tudo lindo demais para que alguém ficasse indiferente. Não havia mais nada no mundo. Haviam sido contagiados pela grande flor amarela que rodopiava no gramado.

A garotinha estava colhendo sorrisos.


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